A coleção Às de Colete

 

 

 

A Às de Colete foi uma coleção de livros de poesia lançada através de uma parceria entre as editoras 7Letras e CosacNaify. Os primeiros volumes saíram em 2005 e novos livros foram publicados nos anos subsequentes. Sob coordenação de Carlito Azevedo, a coleção inclui nomes notáveis como Chacal, Francisco Alvim e Cesare Pavese.

Mas a coleção não se dedicou apenas aos já conhecidos. Muitos dos poetas publicados nela haviam publicado apenas dois ou três livros e, se não eram iniciantes, também não eram veteranos. Dos quatro volumes que li da coleção, três deles (Sons: Arranjo: Garganta de Ricardo Domeneck; Música possível de Fabiano Calixto e Planos de fuga de Tarso de Melo) se encaixam nessa categoria. O quarto livro é Poemas [1975-2005] de Júlio Castañon Guimarães, uma reunião da poesia publicada pelo poeta até então.

Nesses quatro volumes podemos observar o bom trabalho de Carlito Azevedo como coordenador, que selecionou obras de forma consistente e seletiva. Cada uma apresenta suas virtudes e falhas individuais, mas há um padrão ao qual todas foram submetidas. Não é exagero dizer que a coleção serve como um bom indicativo da poesia brasileira que era produzida no começo dos anos dois mil.

Tenho meu ceticismo com algumas tendências da poesia contemporânea brasileira. A poesia mínima, minuciosa em excesso, indulgente e detalhista. A falta de maiúsculas e acentuação. Uma poética dependente demais da anedota, do jogo de palavras, da invenção de neologismo. A poesia avessa a tudo que tem o cheiro de épico, de romântico. O vício no verso curto, de três ou quatro sílabas, como forma de demorar a atenção do leitor sobre cada palavra.

Descrevo esses elementos não como algo pelo qual tenho desgosto, mas ceticismo. Isso porque, embora acredite que eles são frequentemente aplicados de forma ruim, existe a possibilidade de eles serem encontrados na poesia contemporânea de boa qualidade. É o caso dos livros da coleção Às de Colete.

Nenhum dos livros me atingiu naquele nível fundamental que o admirador de poesia é atingido pelos seus favoritos. Porém, sai destes livros cativado e interessado pelo que li.  Ressalto aqui a exploração da mecânica poética de Ricardo Domeneck, a construção minuciosa de Fabiano Calixto, o investigar da vida moderna de Tarso de Melo e as cenas de Júlio Castañon Guimarães.

Para os constantes alardeadores de uma suposta crise na poesia nacional ou apenas para aqueles que vivem órfãos desde que os gigantes do século XX morreram, a coleção Às de Colete é um bom lembrete de que, mais do que em qualquer período na história do Brasil, hoje se escreve boa poesia. Se há gigantes entre nós, essa é uma outra história. Por enquanto, basta dizer que para quem está disposto a se abrir, mesmo que minimamente, para a nova poesia, há recompensas imediatas.

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