O Brasil cordial

Sérgio Buarque de Holanda – Fonte: Divulgação

Raízes do Brasil, a obra mais famosa de Sérgio Buarque de Holanda, foi um livro de múltiplas encarnações. Publicada pela primeira vez em 1936, foi repetidamente revisada pelo autor. Foi entre a primeira (1936) e a segunda edição (1948) que o texto foi mais reescrito. Da segunda até a quinta edição (1969) a obra sofre outras alterações, mas nenhum tão substancial quanto esta.

Além dessa série de revisões que Raízes acumulou, uma outra mudança afetou decisivamente a visão da e sobre a obra. É quando ela ganhou, a partir da sua terceira edição (1955) um apêndice que lhe acompanha até hoje. Um texto originalmente publicado na revista Colégio, em 1948, mas que hoje é lembrado um anexo distinto, mas vital, do livro.

O nome é autoexplicativo: Carta a Cassiano Ricardo.

A carta é uma réplica a um artigo de Cassiano Ricardo na mesma revista que trata de um dos principais conceitos associados a Sérgio Buarque: o do homem cordial. Originalmente, o homem cordial foi uma expressão do poeta Ribeiro Couto, que a utilizou em uma carta ao escritor Alfonso Reyes, que havia estado no Brasil como representante diplomático do México. Na carta, Ribeiro Couto afirma que o grande legado da civilização brasileira seria o homem cordial, o indivíduo generoso, receptivo e bondoso no trato pessoal.

Na carta-réplica, Sérgio detalha como Cassiano adota o conceito e tenta qualificar a bondade do brasileiro como “técnica da bondade” ou “bondade empregada com sabedoria e até um certo tom de maquiavelismo”. É como se Cassiano tentasse encaixar a maldade que há no brasileiro, assim como em todos os povos, nessa moldura afetuosa e generosa que tomara de Ribeiro Couto.

Sérgio propõe uma alternativa. Se volta para a palavra cordial como referente ao coração, ao cor latino. Ou seja, o povo brasileiro é cordial não no sentido de ser meramente bondoso ou receptivo, mas por ser passional, por ser guiado pelas vozes que partem dos sentimentos. Ressalta que “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração”.

Segue esse pensamento mais adiante na carta quando, falando sobre o povo brasileiro, diz que “Não pretendo que sejamos melhores, ou piores, do que outros povos. Mas qualquer discussão sobre este tópico envolveria divagações em volta de critérios subjetivos, sem resultado plausível.

Na frase acima, além de ressaltar a cordialidade como forma de passionalidade, também prepara seu argumento de que toda essa discussão é um tanto inútil. Dando continuidade a esse argumento, no último parágrafo escreve uma espécie de necrológio iminente do homem cordial. Este seria um tipo característico do Brasil rural e colonial, e a acelerada urbanização rapidamente tornava o tipo obsoleto. A última frase do último parágrafo tem até ares de mea culpaE às vezes receio sinceramente que já tenha gasto muita cera com esse pobre defunto. ”

Sutil, Sérgio encerra a carta com um breve “Cordialmente.” No entanto, nem esta carta, nem o próprio Sérgio encerrariam o homem cordial. Já era tarde demais. O homem cordial estava vivo nas páginas do clássico Raízes e encontraria terreno fértil na mente de milhares de leitores. Invés de destruído pelo mundo moderno, o conceito se modernizou. Novas mentes moldaram-no e usaram-no como lente para as novas situações de um novo Brasil. O home cordial seguiu vivendo, e vive até hoje, muito além do que Ribeiro Couto, Cassiano Ricardo e até mesmo Sérgio Buarque de Holanda, podiam esperar deste pobre defunto.

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