Literatura brasileira: modos de usar, Luís Augusto Fischer

08-05-18

Literatura brasileira: modos de usar, de Luís Augusto Fischer, escapa de rótulos fáceis. É um livro de crítica literária que também busca ser acessível, querendo se comunicar com o leitor ocasional, que já foi exposto ao “cânone” brasileiro, mas nunca chegou a lê-lo. Pode parecer absurdo escrever um livro de crítica com esse objetivo em uma país que nem o Brasil, mas Fischer tenta. E, em grande parte, consegue. Dois fatos fazem do seu sucesso um “em grande parte” e não um “absoluto”.

Primeiro, o livro existe entre dois polos. Um, o do tradicional livro de crítica, que busca investigar e esmiuçar a literatura, o outro, o do livro acessível, que está disposto a sacrificar a profundidade da investigação para não alienar leitores. Naturalmente, esses dois polos estão em atrito. E, quando confrontado com esse atrito, Fischer escolhe pelo primeiro polo. Não torna o seu livro mais acessível se, para isso, precisa abandonar uma linha de pensamento ou simplificá-la.

Para este que vos fala (EQVF), é uma escolha justa. Mas EQVF é alguém que já possui o costume da leitura de crítica. Se levarmos em conta o objetivo do texto de ser acessível, essa posição de Fischer de optar pela investigação pode ser um pecado.

O segundo fato é o foco que Fischer dá à sua investigação. Ao contrário de outros livros com “literatura brasileira” no título, este não tenta construir uma história das letras brasileiras. Fischer chega trabalhar a ideia geral do que é a literatura brasileira, como ela se formou e o que ela representa. Mas tudo com traços amplos. Está mais interessado em investigar assuntos queridos seus do que montar um cânone.

A dualidade regional-nacional e nacional-estrangeiro, a consolidação dos Modernistas, as falhas do cânone, o uso dos dialetos regionais na literatura e alguns autores específicos como Machado de Assis, Guimarães Rosa e João Simões Lopes Neto, compõe esses assuntos. Reiterando o argumento feito antes, o foco neles não incomoda EQVF. Ao contrário, Fischer trabalha seus pontos fortes ao discorrer sobre os assuntos que lhe interessam e sobre os quais tem experiência.

Porém, dado o objetivo do livro de apresentar a literatura brasileira para um leitor inexperiente, é de se pensar que talvez uma investigação concentrada em assuntos específicos não vai contra o princípio da obra.

Em ambas as críticas feitas a cima, EQVF deixa clara sua falta de certeza ou absolutos. Isso porque é possível que o mosaico de passagens mais acessíveis com mais complexas, assim como a investigação concentrada de alguns temas, forma um livro que consegue ser acessível e ao mesmo tempo provocar no leitor ocasional uma reflexão mais profunda. Sejamos otimistas e torçamos para essa hipótese.

Mas Literatura brasileira: modos de usar não depende do otimismo de ninguém para se sustentar. É um livro virtudes sinceras e sólidas. Fischer levanta questionamentos não apenas válidos, mas necessários, sobre a historiografia e interpretação das letras e da cultura do nosso país. A partir desses questionamentos olha também para o país em termos sociais e históricos, assim como para a cultura brasileira além do livro.

A fama de crítico dos Modernistas pode levar alguns a crerem que Fischer é um iconoclasta inveterado. O livro prova que não. Menciona e exalta os autores que podem ser encontrados nas histórias literárias de Antônio Candido ou Alfredo Bosi sendo mencionados e exaltados, como Machado de Assis, Clarice Lispector, Drummond, João Cabral e Guimarães Rosa. Também faz a ponte entre a literatura e a cultura popular (especialmente quando fala de Bossa Nova e MPB). Satisfaz os pré-requisitos esperado de um acadêmico de Letras. E, assim como Candido e Bosi, jamais sacrifica a objetividade e transparência do seu raciocínio.

O que o diferencia (e o que compõe a parte mais interessante do livro) é o seu gosto e interesse por Simões Lopes, pela noção do “regionalismo”, e como esse conceito foi construído. São dois interesses próximos e entrelaçados, um fecundando o outro. Tratando esses temas através de um pensamento claro e bem-estruturado, o autor se mostra preparado para se comunicar com um público maior que os tradicionais leitores de crítica literária. Desejemos a Luís Augusto Fischer toda sorte possível.

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Tudo isso, toda essa variedade, está escondido sob o rótulo insuficiente, redutor e anticrítico de ‘regionalismo’, o que já deveria ser motivo suficiente para ele ser posto departe, no debate relevante.

“Ser brasileiro não implicava rejeitar a guitarra elétrica (como a grande Elis Regina desejou, ao liderar a famosa passeata contra o hoje inocente instrumento), como não significava deixar de lado antigos samba de roda. Tudo era matéria nacional, tudo era identidade, nesse país enorme, confuso, magnífico. ”

Recomendado para: quem gosta de literatura regional, brasilianistas, leitores que ainda não tocaram em nada de teoria ou crítica literária e tem asco à academia.

Literatura brasileira: modos de usar de Luís Augusto Fischer foi publicado originalmente em 2007 em português.

A edição na qual essa resenha se baseia foi publicada no Brasil em 2013 pela L&PM.

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