Atentado ao Homem Moderno

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Os mansos herdam a terra, mas os céticos modernos são mansos demais para reivindicarem sua herança. – G. K. Chesterton

Existe um Homem que às vezes é uma mulher mas, na maioria dos casos, é um homem. Esse Homem está passando por um momento muito particular da sua vida. Sente-se alienado da rotina e dos seus relacionamentos. Emoções, pessoas, atividades, causas que costumavam movê-lo não o comovem mais. Isso produz os questionamentos internos que o movem mais que a realidade material. Se afasta do chão sobre qual sempre caminhou. Flutua sobre o solo e, à distância, tem um olhar novo sobre suas antigas certezas e ações que lhe envolviam.

Esse Homem é um protagonista recorrente nas narrativas modernas (modernidade aqui entendida como o período das primeiras décadas do século XX até o presente). Na literatura, ele se insinua no final do século XIX, especialmente na literatura dita realista. No século XX, começa a se materializar nas primeiras décadas e toma sua forma substancial na segunda metade do século, se estendendo até nossos dias.

Não é difícil entender o apelo do Homem. Como protagonista, é ferramenta para explorar a miríade de temas e assuntos que instigam o escritor. Ele se sente deslocado do mundo, mas é parte do mundo. Está dormente na sua rotina, mas é uma rotina que ele mesmo criou. Não está satisfeito com seus relacionamentos, mas são relacionamentos que ele construiu. Esse estar/não-estar no mundo faz dele um veículo ideal para o ficcionista. Fornece na medida certa a presença e a distância, a imersão e o afastamento, equilíbrio perfeito para o artista.

Esse estar/não-estar é simbólico quando tomamos o Homem como arquétipo do habitante dos tempos modernos. Há quem caracterize a modernidade como a dissolução da fé nas antigas instituições (Governo, Igreja, Nação, Família e outras bestas sagradas). Nessa caracterização, o Homem é vítima e perpetuador dessa fé dissolvida. E, estando/não-estando no mundo, é humano o suficiente para gerar empatia com o leitor e desumano o suficiente para ser ferramenta narrativa.

Como protagonista, o Homem não é intrinsicamente ruim. Ao contrário, já foi a peça central de grandes obras e, sem dúvida, ainda será. Subsiste por causa da sua utilidade. É capaz de utilizar os sentimentos de alienação do leitor como veículo para investigar temas fundamentais. É uma ferramenta, e como toda ferramenta, é tão boa ou má quanta o uso que se faz dela.

Mas é de se notar que o Homem já virou um clichê. Do romance existencial à dramaturgia com crítica social, do rock indie às comédias românticas de Hollywood, ele se tornou o feijão com arroz dos protagonistas modernos. É o ponto-morto dos nossos protagonistas e, consequentemente, das nossas narrativas. É a estrutura heroica de Joseph Campbell aplicado a problemas emocionais, filosóficos, problemas de aceitação da realidade, de relacionamentos e assim em diante.

Já que o nome de Campbell foi evocado, podemos tentar uma explicação: talvez o Homem seja a nossa resposta aos tempos não-heroicos. Empobrecidos do mito e de fantasia, a resposta é criar jornadas interiores, viagens de autodescoberta e realização pessoal. Na falta de um dragão para matar ou um reino para resgatar, o protagonista aprende a amar, a sair da zona de conforto, a lidar com a vida e assim em diante, sempre através da superação de um trauma.

Sempre houve, e segue havendo, escritores e artistas que criam suas próprias criaturas que não são epifanias prestes a acontecer, nem grandes realizações cronometradas. Que criam seres de carne e sangue e problemas materiais (o que não impede esses problemas de também afetarem a vida interna). E mostram que há tanto sentido, tantas respostas interiores a serem obtidas das narrativas não “filosóficas” (ou “intelectuais” ou “existenciais” ou qualquer outro termo).

Talvez não seja necessário se livrar do Homem. Mas dar a ele o descanso merecido a quem está tendo revelações e epifanias há mais de século.

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