Lembrar e construir

Joaquim Manuel de Macedo em 1866

No seu Literatura brasileira: modos de usar, Luís Augusto Fischer ressalta uma afirmação de Sérgio Buarque de Holanda sobre os colonizadores portugueses em Raízes do Brasil: que as cidades que os portugueses construíram aqui não era impostas à natureza, mas se moldavam à natureza. Não havia uma cidade imaginada construída, mas uma cidade que ia se encaixando nesse terreno.

A afirmação, e a explicação de Sérgio para ela, já foram habilmente contestadas (ver o trabalho da profa. Schürmann aqui), mas Fischer usa-a como um princípio para falar sobre a tradição realista da literatura brasileira. Alguns capítulos depois, menciona também a tradição de livros de memórias, na história da literatura brasileira. Unindo esses dois pontos, podemos ver como há uma riqueza de lembranças, sejam empíricas ou fictícias, na nossa tradição. Desde o onipresente Dom Casmurro até o incendiário Grande Sertão: Veredas, dos romances meditativos de Michel Laub até a prosa sincopada de Raduan Nassar.

Joaquim Manuel de Macedo escreveu um livro que participa dessa tradição de uma maneira muito particular. Macedo tornou-se famoso, ainda jovem, com a publicação de A moreninha. Hoje, é mais um nome a que somos expostos nas aulas de literatura e que é corriqueiramente confundido com outro Manuel da época, Manuel Antônio de Almeida. Facilita a confusão o nome de algumas obras suas. Ao lado do famoso Memórias de um sargento de milícias (de Almeida) temos Memórias da rua do Ouvidor (de Macedo).

Mas a confusão começa e acaba nos nomes. Almeida constrói um romance que, mais tarde, viria a ser famoso como narrativa que foca nas classes populares em uma época de romances mais elitistas. Macedo faz uma construção gradual de uma das mais notórias ruas do Rio de Janeiro e seus moradores, populares ou não. E onde Almeida tropeça por causa do seu amadorismo com narrador, Macedo encontra sucesso com sua prosa de autor experiente e com domínio da própria pena.

Memórias da rua do Ouvidor flerta com a história, mas o escritor, quando pressente um causo ou lenda com potencial, se mostra mais do que disposto a deixar a história de lado e ser indulgente com uma boa narrativa. Resultado: um livro que não possui muito rigor ou método, mas que é um passeio curioso, instigante e agradável pelo passado de uma notável rua na Corte.

O livro se abastece muito da história pessoal de Macedo, sua vivência própria na famosa rua, especialmente na segunda metade do livro. Na primeira, se nutre dos dados históricos que o autor conseguiu localizar, assim como anedotas e estórias populares que lhe interessam. Acaba construindo uma história ao mesmo tempo documental e oral de valor narrativo inegável.

É uma típica obra do século XIX brasileiro. Não há precisão científica, nem metodologia. Frequentemente o empírico descamba para o ensaístico. Mas tudo é feito com sincero interesse e paixão pela rua e sua história, e tudo narrado com habilidade por um homem que talvez tenha sido o primeiro best-seller brasileiro. Como próprio Macedo admite, escreve o livro ideal para uma rua famosa por desfilar notícias, rumores, boatos e fofocas.

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