Contra as escolas

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Visto que esse texto será o último publicado neste blog com alguma regularidade, decidi escrevê-lo sobre um assunto que é grande interesse meu e que, de uma forma ou de outra, já se insinuava em outros artigos publicados neste espaço. Falemos das escolas literárias.

O primeiro sinal das minhas desavenças com elas vem do ensino médio. Mais especificamente, das aulas de literatura em que se falava de poesia parnasiana. Lendo os (poucos) poemas a que fui exposto dos próceres do movimento, Bilac, Oliveira, de Carvalho e etc., me pareceu haver ali sincero valor poético, apesar das falhas explicitadas. Mas a forma como os Parnasianos eram apresentados em aula, tanto pela professora quanto pelo livro, pareciam destoar da minha opinião.

Mais tarde, compreendi um pouco melhor a situação. Era que os Parnasianos eram uma escola derrotada e a escola vitoriosa havia sido responsável por influenciar o gosto de muita gente.  Embalados em um pacote só, os Parnasianos foram reduzidos a uma meia-dúzia de adjetivos. Passaram a ser lembrados sempre como grupo, poetas siameses, tachados de superficiais, acadêmicos e estetas. Quando elogiados, o elogio costumava ser acompanhado de poréns.

No entanto, ambas escolas, tanto a vitoriosa quanto a derrotada, sofriam do mesmo problema. Embora uma seja mais elogiada que a outra, ambas se encontram dentro da mesma maldição: são escolas. Ambas são abstrações construídas a partir da redução da singularidade de obras e de autores, isso para produzir um conceito prático e manejável. Conceitos que servem menos à crítica do que ao pragmatismo.

As escolas possuem suas utilidades, sem dúvida. Facilitam a organização da história literária, sua discussão e seu ensino. Mas é nessa facilidade que reside seu perigo. O conceito das escolas deve sempre ser tratado com ceticismo, o leitor consciente da fragilidade com que eles são constituídos. Menos uma verdade que elucida um grupo de obra e de artistas, mais uma concepção superficial obtida a partir da aproximação deles.

O problema das escolas fica ainda mais evidente quando olhamos para o ensino da literatura no Brasil (e não há dúvidas que o problema se replica em outros lugares). Isso porque o ensino no Brasil é mais fundamentado no ensino das escolas do que das obras. Tiramos os livros das mãos dos estudantes para colocar leituras pré-fabricadas. Ensinamos mais a escola do que os autores. E acabamos produzindo alunos que decoram as meia dúzias de características de cada uma para passarem nas provas ou ENEM e seguem a vida, alheios ao contato com o livro.

Borges, no seu poema Invocación a Joyce, resume bem o mérito das escolas ao falar da sua própria juventude e da obra do irlandês caolho:

Fuimos el imagismo, el cubismo,

los conventículos y sectas

que las crédulas universidades veneran

No final, estamos mais praticando atos de credulidade do que de crítica quando tornamos as escolas como ferramentas essenciais para interpretar nossa história literária e artística. As escolas são ferramentas úteis apenas quando devidamente usadas. Da forma como a literatura é pensada e ensinada no país, elas estão mais para muletas do que ferramentas.

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